CORPUS CHRISTI: DO CORPO ENCARNADO AO CORPO VIOLENTADO

Por Jones Mendonça

As celebrações de Corpus Christi ou Corpus Domini têm origem no catolicismo medieval e aparecem relacionadas à paixão de Cristo, sua morte, sua crucificação, sua ressurreição, ao mistério da trindade e, mais especificamente, à eucaristia (para nós batistas, “Ceia do Senhor”). Para marcar a data, os católicos desenvolveram procissões capazes de solenizar o Santíssimo Sacramento, entendido como renovação do sacrifício de Cristo. No Brasil colonial as celebrações foram cooptadas pelo poder político e convertidas em “tradição Pátria” em “festa real”, em espetáculo público patrocinado pelo Estado cuja finalidade política era “conquistar/colonizar” os fiéis, os súditos[1].

Lutero removeu da eucaristia seu valor sacrificial, posição que foi adotada pelos batistas. Na perspectiva batista, o papel dos elementos da ceia foi entendido não apenas como lembrança de um evento ocorrido no passado, mas como sinal da promessa futura da ressurreição do corpo. De modo semelhante ao que aconteceu no catolicismo, a data de Corpus Christi foi escolhida por alguns grupos evangélicos para unir os féis em uma “procissão” conhecida como “Marcha para Jesus”. O uso político da data – infelizmente – também se repetiu. Mas o que as celebrações de Corpus Christi tem a nos dizer hoje, como batistas?

Uma das possibilidades é refletir sobre o corpo, sobre a representação de Cristo enquanto homem, enquanto Deus encarnado, enquanto kénosis[2]. Na história da arte cristã a representação de Cristo em sua corporeidade ganhou espaço privilegiado nos eventos da Paixão. Assim, foi retratado de duas formas fundamentais: o Christus Victor (Cristo vitorioso) e o Christus Patiens (Cristo sofredor). O primeiro foi moldado a partir da teologia dos chamados Pais da Igreja, e enfatizava a vitória de Cristo sobre a Cruz, o pecado, a morte e as forças destrutivas do mal[3]. O segundo ganhou força a partir do final da Idade Média, influenciado pela teologia de Anselmo de Cantuária, teólogo do século XI. A proposta era apresentar Cristo como “homem de dores”, exaltando seu corpo flagelado e, portanto, o elevado preço que pagou para satisfazer as demandas da justiça divina.

Refletir a partir da imagem do Christus Victor, do Cristo triunfante que vence a morte é tarefa relativamente simples, dada a positividade que esse tipo de representação evoca. Mas o que dizer do Christus Patiens, do Cristo violentado? Ao redor da imagem do Cristo como corpo sofredor, desenvolveu-se uma piedade ascética, negadora da vida, pessimista, por vezes apegada a suposições de que os sofredores marginalizados e injustiçados devem ser ver como imitadores de Cristo. Esta foi, por exemplo, a perspectiva do Padre Antônio Vieira, que procurou consolar a vida sofrida e desafortunada dos escravos africanos no Brasil argumentando que são “imitadores de Cristo crucificado: Imitaturibus Christi crucifixi”, afinal padecem de um modo muito semelhante ao que o Senhor padeceu na cruz[4].

A representação do corpo dilacerado de Cristo na cruz, no entanto, pode nos sugerir um caminho mais ativo, mais comprometido com mudanças no mundo concreto, sobretudo em relação ao sofrimento humano. É possível inverter a lógica do padre Antônio Vieira e propor, por exemplo, que não devemos nos calar diante das injustiças, afinal Cristo padeceu na cruz sendo ele mesmo um rejeitado, um injustiçado. Mas a imagem do Cristo sofredor precisa ser compreendida em conjunto com a do Cristo vitorioso. Se por um lado seu sofrimento e morte expõem a crueldade e o mal presentes nos poderes mundanos que o rejeitaram e o mataram, por outro lado sua vitória sobre a morte e o mal anuncia seu triunfo sobre estes mesmo poderes.

O quadro que se impõe diante de nós aponta, no horizonte futuro, para a dimensão escatológica da obra de Cristo, para a esperança da ressurreição do corpo e a vitória definitiva sobre a morte e o mal. Por outro lado põe em evidência a necessidade de estarmos atentos aos corpos desfigurados, dilacerados, violentados, torturados e oprimidos de nosso tempo. Cristo se identifica com estes indivíduos, os “benditos de meu Pai”, em Mt 25,34-40. São os que foram privados de comer, de beber, de vestir, e que foram colocados em situação de desamparo. A celebração de Corpus Christi ainda se faz necessária na medida em que nos ajuda a compreender o corpo de Cristo em todas as suas dimensões, sobretudo na relação que se pode estabelecer entre Seu corpo e os corpos de todos nós.

Notas:

[1] SANTOS, Beatriz Catão Cruz. O corpo de Deus na América: a festa do Corpus Christi nas cidades da América portuguesa – século XVIII. São Paulo: Annablume, 2005, p. 33-34.

[2] Kénosis é um conceito teológico que indica o esvaziamento, o despojamento de Cristo, tal como indicado no hino cristológico presente em Fp 2,6-11.

[3] AULÉN, Gustaf. Christus Victor: an historical study of the three main types of the idea of atonement. London: SPCK, 1975, p. 20.

[4] VIEIRA, Antônio. Sermões (Tomo I). São Paulo: Hedra, 2001, p. 651.