DESMACHIZAÇÃO: RECONFIGURAÇÃO DO CONTEÚDO DE GÊNERO E A DIGNIDADE HUMANA

Por Uipirangi Franklin da Silva Câmara

 INTRODUÇÃO

Judith Butler (2003), retomando Beauvoir (2009) coloca a questão dos espectros de mistério e incognoscibilidade da mulher em uma cultura construída e centrada num mundo fundamentalmente masculino. Por isso causa horror que repentinamente esse “intruso” objeto, devolva seu olhar para os tais sujeitos e lhes imponha uma coisa impensável: Tornarem-se objetos. O outro lado de tal constatação é que o que para mulheres (também outras construções de gênero) – enquanto objetos é mistério, para os sujeitos e mundos masculinos não, já que seus fundamentos e constructos estão acessíveis e muito bem delimitados.

Há, ainda segundo Butler (2003) uma configuração de poder que opera num certo regime epistemológico que presume uma ontologia em que a heterossexualidade é dada, compulsoriamente, como natural. O problema, tanto para Butler (2003), como também para Beauvoir (2009) esse postulado de naturalidade é um equívoco epistemológico já que essa “naturalidade” se configura culturalmente por meio de atos, discursos, performances.

Para o Cristianismo, entretanto, ontologia e epistemologia exigem per si a compreensão de que atos, performances e falas que constituem os diversos sujeitos decorrem da assunção de naturalidade presentes no fato de que tudo é obra de Deus. Nessa afirmação se reconhece o natural como paradigmático, normal e normalizador e que, portanto, o que foge à essa regra é anormal, patológico, desnatural e doentio. Dado tal pressuposto, a presente fala não vai descaracterizar essa ilusão de naturalidade já que coloca em xeque a necessidade de um Deus criador e sustentador de todas as coisas, mas, ao contrário vai perguntar pelo conteúdo expresso naquilo que é admitido como projeto de Deus e que pode ser notado claramente por que se circunscreve em atos, falas, performance. E aqui é licito perguntar: Qual o conteúdo do Projeto de Deus expresso nos gêneros parametrizadores do normal e anormal? Como, nesse pressuposto, Deus e natureza se confundem ou se completam, a observação da natureza revela um projeto único Divino em todas as performances discursivas que envolvem os gêneros.

Para dar conta do enfrentamento dessa questão, ou seja, a pergunta pelo conteúdo, opta-se por explorar um mote defendido nos dias atuais por vários cristãos, conhecido como ideologia de Gênesis[1] – Deus criou “Macho e Fêmea”. A inferência que se postula aqui é a seguinte: se há um conteúdo divino para Gênero expresso na natureza e identificado em Gênesis como parametrizador para qualquer Sociedade, então, nada mais lógico de que buscar o seu conteúdo. Esta pesquisa se aterá, na procura por esse conteúdo, na análise do Livro Sagrado para Judeus e Cristãos, apontado na ideologia denunciada, como guardador do Projeto de Gênero de Deus para a humanidade.

Como recorte para essa abordagem parte-se da seguinte questão central: Qual o conteúdo do modelo de homem que Deus criou e que deve ser imitado por toda a espécie humana? A suspeita que se configura como resposta provisória a essa questão é de que a naturalização do Gênero (E sua consequente divinização) é resultado de uma configuração ontológica e epistemológica que hipostasia à Deus a mentalidade cultural predominante do macho como modelo parametrizador do que é normal, divino e sadio. O resultado dessa análise provisória é que, demonstrado o conteúdo, assinala-se o propósito divino. Qualquer constatação que invalide os conteúdos apontados como projeto divino em razão de suas possíveis consequências, inegavelmente afirmará que os mesmos são, inegavelmente, projetos culturais, portanto, constructos humanos.

  1. DE FRENTE PRO ESPELHO: O HOMEM QUE DEUS CRIOU

Uma difícil questão, não para teóricos das diversas áreas do saber, é contrapor cientificidade (academicidade) à experiência de fé. Já arraigada no senso religioso comum, a ideia de que os textos sagrados são (a despeito de qualquer construção humana) palavra de Deus torna-se um antidoto a qualquer experiência de desconstrução ideológica ou cultural (BERGER, 1985; HOUTART, 1994). Nesse sentido, as aulas sobre hermenêutica, análise de discursos, da linguagem, bem como pressupostos da Antropologia Cultural são como ressonar insignificantes de sinos[2] (retomando uma figura bíblica registrada nos escritos de Paulo, o apóstolo cristão).

Por uma razão puramente pragmática – reflexão pura e simples, a presente fala se propõe a apresentar os textos bíblicos tais como são postos e contrapor a imagética popular (Numa espécie de efeito bumerangue[3]) às implicações socioculturais expressadas nos conteúdos de sua leitura de fé. Nesse sentido, aposta-se que a leitura inicial da criação do homem e do macho como projeto de Deus sofre solução de continuidade quando não se completa o trajeto que expressa, no próprio texto, a necessidade de se perguntar o que Deus criou além do que biologicamente está afirmado.[4]

Embora, por uma questão de método, não se trabalhe aqui todos os pressupostos exegéticos para um aprofundamento dos conteúdos aqui tratados, que aliás fazem uma diferença significativa para a Hermenêutica de e sobre Gênero (SCHOTTROFF; SCHROER & WACKER, 2008), aponta-se como necessário as seguintes compreensões gerais: a) Os textos são escritos coletivamente e por um período cronologicamente significativo, e, b) Os textos foram escritos de uma perspectiva androcêntrica. Portanto, embora não se tenha informações significativas sobre o universo feminino, tem-se o suficiente para definir uma parte considerável do universo masculino, sobretudo, no ponto em questão: O conteúdo de gênero.

O texto bíblico[5] do qual se parte a afirmação que contém o que, por acordo, convenciona-se chamar aqui de ideologia de Gênesis diz o seguinte:

Disse também Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todo réptil que se arrasta sobre a terra.

Criou, pois, Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Embora não haja um acordo sobre o sentido do termo hebraico que designa imagem, a ideia majoritária é que isso signifique a capacidade de inteligência, vontade e poder, afirma-se aqui que a humanidade foi criada por Deus. Por outro lado, é importante notar que as palavras hebraicas para Adão e Eva (Adam, terrestre e Hawwah, mãe de tudo o que é vivo) não têm a conotação dada pela linguagem de fé (Macho e Fêmea), os termos adequados seriam ish e isha[6]. Apesar dessa diferença importante, a compreensão das comunidades cristãs não faz tal distinção, partindo sempre da afirmação geral de que Deus criou a humanidade a partir de uma perspectiva binária: Macho e Fêmea (Homem e Mulher).[7]Para o propósito dessa fala, adotar-se-á tal perspectiva.

As comunidades de Fé, com exceções de rotina[8], não continuam sua leitura no sentido de perceber o conteúdo do macho, do projeto de Deus, após a criação. Apenas dá um salto para o evento de desobediência marcado no Éden e a partir daí pressupõe qualquer desvio como fruto do pecado. Entretanto, o primeiro confronto com a criação (Macho e Fêmea) aponta, ou um problema de Fábrica, ou revela um projeto em construção (autoconstrução como parece mais provável[9]). O relato de Gênesis 3 é significativo:

A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu.

Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram.

A tradição atribui à mulher toda (Ou, a maior parte) a culpa pelo evento[10], embora o texto aponte o fato de que o homem estava em sua companhia no episódio em que ambos resolvem seguir carreira solo. A questão é que não há completude no modelo de Deus para o homem, há, na melhor aposta, desejo de que ele construa um projeto em parceria, mas isso, determinado mesmo por Deus, depende do seu (do homem) desejo. E, aqui no episódio de ruptura ele deseja ser um igual. O problema não é apenas com “A mulher que tu me deste”, o problema é: Também não estou satisfeito com o meu lugar nessa Empresa, quero ser um igual (Tal qual como sugerido pela assessoria jurídica).

O que o Genesis revela, como espelho, é que não há absolutamente nada de conteúdo (divino) para gênero até o momento do distrato entre a Humanidade e Deus. A partir daí, sim, o conteúdo começa a desnudar-se. A questão que cristãos precisam perguntar é: Estamos preparados para encarar o conteúdo de Gênero que pensamos ser necessário defender? E de onde vem esse conteúdo?

O que é preciso apontar é que para a Academia isso aqui não é nem segredo, não há nada de novo. O que está sendo introduzido aqui é a opção prioritária por fazer conhecido a cara do Macho que Deus criou, seu conteúdo. E, nesse sentido, não para possibilitar as outras expressões invisibilidades, mas para insistir nesse necessário reconhecimento como primeiro passo para que a Sociedade (Sobretudo no espaço educacional [11]) seja marcada por tolerância e respeito pelas diversidades.

  1. 2. MASCULINO E FEMININO NA IDEOLOGIA DE GÊNESIS

          O macho da Ideologia de Gênesis não é homem suficiente para assumir seus erros. Na primeira oportunidade joga para a mulher o medo de assumir responsabilidade pelo seu erro. Como estratégia de sobrevivência, esse macho vai fazer de tudo para livrar sua cara: Se safa tentando jogar a culpa em Eva e em Deus (Deus é culpado por não ter feito direito. Eva é culpada por não ter sido forte o bastante). Mata facilmente o irmão, mente tranquilamente para um Rei. Toma um porre e viola o pai. Foge de dar descendência ao irmão. Oferece suas filhas para serem abusadas (numa linguagem mais simples), mas protegem os machos com os quais a relação sob o manto de adoração, pode revelar algo mais abjeto: o caráter negociador, de mercador- Cuido bem de Deus, serei bem cuidado por Ele.

Esse conjunto de características acabou com a vida de Faraó, acabou com o mundo, acabou com vários povos. Uma leitura, apenas para ficar em Gênesis, vai revelar que o conteúdo de gênero em Gênesis é um completo desastre. Não há um só período em que não haja uma tragédia ocasionada por esse Macho completamente incapaz de conviver com a diferença, com os diferentes. Na pior das hipóteses se “um outro macho mais forte que ele (No caso Deus) não o ameace ou amedronte, ele passa por cima de quem quiser.

O problema é que esse processo de “divinização do modelo de gênero”, histórica e culturalmente sedimentados, vai propiciar uma adaptação ontológica e epistemológica de matriz evolutiva surpreendente.  Esse tipo de macho, tem um avanço Cognitivo visível naquilo que podemos chamar de organização da Religião Formal: O direito de dizer o que Deus pensa, ou melhor, o direito de falar por Ele.

Ora, quando o macho assume uma função sacerdotal e passa a justificar seus atos como Vontade de Deus, ele está dizendo que Deus concorda com esse modelo de macho, no final, Deus mesmo é assim.

3. A IDEOLOGIA DE GÊNESIS É UMA IDEOLOGIA DE ANIQUILACÃO DA DIFERENÇA

          Tem um velho ditado que diz que quando não conhecemos a História, tendemos a repetir os mesmos erros. Os erros e a História estão aí, o que precisamos como Sociedade é dar um basta nessa leitura de poder que impede que os fiéis analisem de forma crítica[12] o conteúdo da fé que abraçam.

No caso do Cristianismo no Brasil, a opção de continuar historicamente com uma leitura evangélica do Gênesis de matriz alegórica (Orígenes[13]) além de oposição frontal ao ensinamento do Cristo de um “amor sobre todas as coisas”, é um veículo potencialmente mediador de uma mensagem de destruição e ódio. Isso que percebemos, cada vez mais de forma nítida, já é antecipado na política. Esse discurso de ódio na direção das minorias, dos diferentes, é verbalizado por uma maioria de matriz judaico cristã. E, é importante que se mostre, não se trata de perseguição, mas de constatação. O eleitor de sujeitos como Jair Bolsonaro (Protótipo do Macho desejado pela Ideologia do Gênesis) é majoritariamente cristão.

O que se propõe como opção a tal quadro desenhado até aqui? A Desmachização. O abandono de qualquer ideia de que há um Gênero dado por Deus por ocasião da criação e assunção da necessidade de construção de um modelo masculino que se caracterize por ter Cristo como parâmetro.

         Nesse caso, para o Cristianismo, os machos incorporariam como projeto a doçura, ternura, paciência, perdão, acolhimento e alegria.

 

  1. REFERÊNCIAS

 

BEAUVOIR, S. O segundo sexo. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2009.

BERGER, P. O dossel sagrado: Elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulinas, 1985.

BRENNER, A. et al. Gênesis a partir de uma leitura de gênero. São Paulo: Paulinas, 2000.

BUTLER, J/ Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

HOUTART, F. Sociologia da religião. São Paulo: Editora Ática, 1994.

SCHOTTROFF, L; SCHROER, S.; WACKER, M-T. Exegese feminista: Resultados de pesquisas bíblicas na perspectiva de mulheres. São Leopoldo: Sinodal/EST; CEBI; São Paulo: ASTE, 2008

 

[1] Uma versão de meme com os dizeres “Sou a favor da Ideologia do Gênesis, Deus criou Macho e Fêmea, Gênesis 1.27” foi distribuída pelo site Gospel Prime mantido por um grupo que se diz independente, embora patrocinado por denominações cristãs, para divulgar e formar a visão cristã de matriz gospel In: <https://www.gospelprime. com.br/ quem-somos/>. Último acesso em 15/11/2017.

[2] O texto registrado em I Coríntios 13.1 diz o seguinte: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”.

[3] Sua afirmação epistemológica (apostas hermenêuticas, políticas, filosóficas, antropológicas) volta-se a você no que você afirma ou nega de forma inconsciente ou ingênua.

[4] A ideia aqui é contrapor o afirmado com o verificável já que a ciência já demonstrou que nem todos os seres humanos nascem com um genital biologicamente definido. Lembrando que para o Cristianismo, por exemplo, o sexo biológico guarda estreita correspondência com o gênero.

[5] Gênesis 1.26,27. Adota-se a versão conhecida como Tradução Brasileira.

[6] A identidade do homem só se forma a partir da criação de sua consorte.

[7] O texto aqui não diz absolutamente nada sobre os constituintes fundamentais desta categoria binária. Apenas, por inferência, deduz-se que o autor do texto tem no seu horizonte os correspondentes culturais de Macho e Fêmea (Homem e mulher) para tal afirmação. Para o leitor comum o acesso a esse significante cultural só se pode dar na busca por esse referencial no restante do livro de Gênesis.

[8] Neologismo para identificar uma postura acrítica. Usar a Cronologia numa perspectiva linear com o intuito de dar validade histórica ao que é narrado. Não há um interesse em pensar o que a marcação cronológica pode apontar.

[9] Gênesis 1.28 acompanha o relato de que tudo estava em potência, com a possibilidade de gerar, construir.

[10] Isso pode ser verificado pela declaração registrada: “A mulher que tu me deste”.

[11] Imagina-se que o espaço educacional seja fronteira livre de preconceitos, espaço de tolerância, entretanto, o que se percebe é que performances vão minando essa possibilidade através de brincadeiras, posturas e falas.

[12] A ideia de análise crítica não é mais estranha ao mundo da fé. A questão é que o sentido de crítico é unilateral, de viés apologético. Se recorre a ele toda vez que o poder ou a ordem estabelecida é ameaçada.

[13] Destaque na Hermenêutica quando interpreta o cântico dos Cânticos como declaração de amor de Cristo à Igreja.

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